…que ficaram pelo caminho.
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Quando é dia de desenhar a charge meio que entro num transe hipnótico de concentração absoluta que beira a insanidade completa. Quer dizer, é o dia em que realmente evito sair de casa, atender telefone, falar com pessoas ou mesmo deixar o meu estúdio. Simplesmente coloco protetores de ouvido, música – jazz ou blues, para não interferir e cobrir eventuais ruídos externos- e dá-lhe ler jornal, sites, blogs e rabiscar, pensar, verdadeiramente espremer a cuca para tentar algo bom. Um monte de ideias surgem, toneladas de papel vão abarrotando o lixo e lascas de lápis e borracha se amontoam na prancheta. Para a charge de quarta-feira, por exemplo, rabisquei 19 ideias. Fora as que ficam só no texto e na mente. Claro, algumas são horríveis, outras boas e a maioria meia-boca. Escolho umas cinco para desenhar de qualquer jeito e, dessas cinco, apenas uma vai ser escolhida, finalizada e publicada.
O chato é quando, mesmo ficando o dia todo em busca da “charge ideal” muitas vezes você não consegue nenhuma ideia que valha a pena. Isso é muito chato, para não dizer frustrante e angustiante. Conseguir parir uma ideia legal e, na hora de finalizar, estragar tudo de maneira odiosa é quase uma senha para imolação com um chicote de arame farpado.
Isso acontece comigo meio que direto: Olhar no jornal no dia seguinte e pensar “eu podia ter feito o texto dessa maneira” ou ainda “que droga, o nariz ficou torto demais”. Ou ainda, nem mesmo querer ver o jornal de tanto receio.
Podem ser vários fatores para você não conseguir ter uma ideia legal: não dormir direito, o cachorro do vizinho ficar latindo feito um demônio para te encher o saco, receber um telefonema inconveniente, essas coisas. As mais prosaicas. Por isso a necessidade do isolamento completo, para que a chance de alguma m#rda acontecer seja mínima. As vezes o assunto é tão chato e repetitivo que não rende nem uma piada de taverna.
Bem, enquanto não enlouquecer completamente, acho que vou usar esse método de absorsão total na criação da charge. Quando comecei a publicar na Gazeta do Povo, eu ficava num processo de loucura, paranóia e pânico, que desenhava cinco charges, finalizavae mandava-as todas para o editor porque ficava indeciso sobre qual desenho deveria publicar. Não é coisa de maluco? No final, achava que eles tinham escolhido a pior e me deprimia feito um rato.
Vejo chargistas que começam a desenhar a charge meia-hora antes de o jornal fechar e entregam um puta trabalho. Sei lá, não consigo abrir mão da exaustão. Acho que é meio que uma forma de dizer para mim mesmo “se ficar legal, mereço uma grande recompensa”. Por outro lado, se não ficar legal, além da exaustão, acabo ficando deprimido. Normalmente me sinto deprimido.
Enfim, é assim que funciono. Devem ter outros meios menos dolorosos para encarar um trabalho, mas ainda não tive coragem de tentar descobrir qual. De qualquer maneira, a coisa que mais gosto de fazer no mundo ainda é sentar na prancheta e bolar charges. Nem que eu saia com uma costela quebrada, mas saio gratificado.
(Benett)